terça-feira, 29 de abril de 2014

AS CONSEQUÊNCIAS DO AMOR - 2004

Le conseguenze dell'amore, 2004
Legendado, Paolo Sorrentino
Classificação: Bom

Formato: AVI
Áudio: italiano
Legendas: português
Duração: 100 min.
Tamanho: 700 MB
Servidores: 1 Fichier (Parte única)

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Parte única

SINOPSE
Titta Di Girolamo tem uma vida enfadonha. Vive num Hotel na Suíça há quase 10 anos e passa os seus dias à espera que algo aconteça. Com uma rotina rígida, Titta ignora os que estão à sua volta e não mostra emoções. Até que um dia decide quebrar uma das suas regras e troca algumas palavras com Sofia, a atraente Barmaid do Hotel. A partir desse momento o terrível passado de Titta começa a revelar-se.Realizado por Paolo sorrentino (Il Divo) e com desempenhos notáveis de Toni Servillo e Olivia Magnani, AS CONSEQUÊNCIAS DO AMOR integrou a Selecção Oficial do Festival de Cannes em 2004.

The Internet Movie Database: IMDB - NOTA IMDB: 7.7


ANÁLISE

Os dias de glória do cinema italiano podem ter ficado para trás. Entretanto, vez por outra, surgem obras que lançam luz sobre ele, como é o caso de As consequências do amor (Le conseguenze dell’amore. 2004), exercício de autoralidade dos bons proposto por Paolo Sorrentino que vai muito além do que o seu título sugere. Sua narrativa está centrada na figura enigmática de Titta di Girolamo (Toni Servillo), um homem cuja principal característica é o silêncio. Ele mora há anos em um hotel na Suíça e faz questão de manter uma distância considerável das pessoas, como quem acredita que não deva estreitar laços com ninguém. Seu olhar é sempre fugidio e sua expressão é de tédio constante. Certamente, existe muito o que se descobrir a seu respeito, mas com sua economia de palavras, inclusive na narração em off de que ele mesmo se ocupa, torna-se muito difícil adentrar seu passado e suas particularidades. O diretor, portanto, lança o público em uma nuvem espessa de mistério, fazendo de seu filme uma espécie de flerte bem-sucedido entre o drama e o suspense.

Não é muito fácil simpatizar com Titta, haja vista o seu ar um tanto esnobe e evasivo. Mas, aos poucos, pode brotar um estranho sentimento de identificação com o personagem, que, no fundo, tem lá os seus motivos para ser e agir dessa maneira. E, exatamente por ele se mostrar ao espectador como uma esfinge, surge a vontade de conhecer mais daquele homem que, nos olhares, diz muito mais do que com suas frases, quase sempre secas e cortantes. Às tentativas de aproximação de interlocutores, ele entrega réplicas sucintas, traduções de um espírito altamente defensivo. E as perguntas só crescem em quantidade: Por que ele mora naquele hotel? Qual a razão do seu silêncio sistemático e de poucos cortes? Do que ele pode ter se arrependido? Sorrentino não está preocupado em responder a todas elas, e conduz a obra, cujo roteiro também lhe coube, com um tom grave e lento, distante da prerrogativa estrondosa que guia a percepção de um público ávido de histórias básicas pontuadas por interregnos revolucionários.

Indo na contramão da verborragia, As consequências do amor é uma bela experiência de contemplação. O longa traz à tona a questão dos segredos que todos nós temos, e que é importante conservar apenas para nós mesmos. Titta faz questão de guardar o(s) seu(s). Ele é categórico ao lidar com um homem que lhe propõe um acordo: em troca de um segredo seu, o tal homem lhe contaria algo de que ninguém sabe, um segredo inconfessável. Impassível, Titta não lhe revela o que guarda de mais valioso, afirmando que, se ele contar, deixará de ser um segredo. O público, porém, pode inferir algumas respostas às indagações sobre o protagonista, através de flashbacks discretos e pontuais. Em grande parte, certos mistérios de Titta vão se esclarecendo quando de sua decisão de se aproximar da linda garçonete que trabalha no hotel, a quem ele não costumava sequer dirigir um “bom dia”. A jovem, inclusive, demonstra surpresa no dia em que ele finalmente a saúda, já que sempre obteve o seu silêncio em resposta ao mesmo cumprimento. Ela se chama Sofia (Olivia Magnani) e, com seus penetrantes olhos verdes, faz que Titta enfim sucumba ao seus encantos, ainda que ele nunca demonstre seu interesse pela moça por meio de arroubos sentimentais. De alguma forma, é Sofia quem dá algum sentido à sua vida já há tanto tempo esvaziada de significado.

A propósito da atriz, ela é neta de ninguém menos que Anna Magnani, como sugere o seu sobrenome. Trata-se de uma ascendência e tanto, afinal estamos falando de um dos nomes mais importantes do cinema italiano de décadas passadas, sobretudo por seu papel em Roma, cidade aberta (Roma, città aperta, 1945), icônico até os dias de hoje. No caso de Olivia, ainda estamos diante de uma atriz em seus primeiros passos no celuloide, sendo As consequências do amor o seu segundo filme. Ela foi uma feliz escolha de Sorrentino, por sua capacidade de aliar beleza e magnetismo a um talento notável. Sua Sofia é o contraponto ideal para a sisudez de Titta, que desabrocha sutilmente diante dela, desejoso de acolhê-la em seus braços. De qualquer modo, não há espaço para um romance propriamente dito entre eles. A aproximação de Titta serve muito mais para que ele chegue perto de uma espécie de redenção e de um autossacrifício a certa altura da história.

Fonte: Cineplayers


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domingo, 27 de abril de 2014

OS FILHOS DO PADRE - 2013

Svecenikova djeca, 2013
Legendado,  Vinko Brešan
 
Classificação: Excelente

Formato: AVI
Áudio: croata
Legendas: português
Duração: 93 min.
Tamanho: 531 MB
Servidores: 1 Fichier (Parte única)

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SINOPSE
Em uma pitoresca vila na Dalmácia, há mais funerais do que nascimentos. Fabian (Kresimir Mikic) é um jovem padre indicado para ser o novo pároco desse lugar. Ao ouvir a confissão de um dos fiéis, ele descobre que a baixa natalidade é culpa da alta venda de preservativos. Horrorizado e querendo modificar essa situação, ele tem uma brilhante e drástica ideia: perfurar todas as camisinhas antes que elas sejam vendidas. Para isso, se junta ao jornaleiro Petar (Niksa Butijer) e ao farmacêutico Marin (Marija Skaricic). Só que o "milagroso" "boom" de bebês causa consequências inesperadas.

Fonte: Adorocinema
The Internet Movie Database: IMDB - NOTA IMDB: 6.9


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terça-feira, 22 de abril de 2014

CRÔNICAS DOS ANOS DE FOGO - 1975

Chronique des Années de Braise, 1975
Legendado, Mohammed Lakhdar-Hamina

Formatos: VHS
Áudio: árabe
Legendas: português
Duração: 177 min.
Tamanho: 2,65 GB
Servidores: 1 Fichier (3 partes)

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SINOPSE
A história começa em 1939 e termina 11 de novembro de 1954, e através de marcos históricos, mostra que o 1 de Novembro de 1954 (data do início da revolução argelina) não é um acidente da história, mas o culminar de um longo processo de sofrimento. Conta a história do camponês argelino, Ahmad, que foge de sua aldeia, para escapar da fome e da seca. O filme apresenta a violência como estágio inevitável no conflito entre colonizador e colonizado. A transformação de Ahmad, de camponês analfabeto a líder revolucionário, simboliza o amadurecimento de uma consciência independente voltada para a libertação nacional.
 Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1975

Fonte: Cineafrica
The Internet Movie Database: IMDB - NOTA IMDB: 7.3


ANÁLISE

Por senso comum, a década de 1970 constituiu a década de ouro do cinema argelino, marcada sobretudo pelo filme de Mohammed Lakhdar-Hamina, Crônica dos Anos de Fogo, premiado com o principal prêmio no festival de Cannes em 1975 por um júri liderado por Jeanne Moreau, que escolheu esse filme em detrimento de "Passageiro: Profissão Repórter" de Antonioni, "Alice Não Mora Mais Aqui" de Scorsese e "O Enigma de Kaspar Hauser" de Herzog. Longa indisponível em DVD e só raramente localizável em turvas fitas VHS, este filme demonstra uma amplitude de visão e um olho extremamente confiante que justificam a decisão do júri.

Começando em 1938 indo até o início dos anos 1950, este arrebatador épico de quase três horas funciona tanto como uma prévia de a "A Batalha de Argel" (filmado pelo mesmo diretor de fotografia, só que aqui em cores), bem como um registro das sementes de revolta, semeadas não na cidade, mas por toda a ressequida e crescentemente estéril zona rural.

Provavelmente o único filme que supera o espetáculo de "Lawrence da Arábia" (1962), Crônica também desafia a freqüentemente fria patologia do herói britânico com sua onda de poderosos incidentes fatais superados na batalha pela sobrevivência do agricultor Ahmed (interpretado de forma convincente pelo robusto ator grego Yorgo Voyagis). Estes incluem lutas desesperadas pela água preciosa durante os anos de seca, um surto letal de tifo no bairro nativo colocado em quarentena, alistamento forçado no exército da França ocupada de Vichy, e crueldades mortais perpetradas por Caides argelinos colaboradores do colonialismo, a França permanecendo como uma presença distante, bem diferente do filme de Pontecorvo.

Com mais planos de paisagens e utilização de gruas em planos gerais que até mesmo David Lean concebeu, o "widescreen" vibra com a atividade notavelmente encenada por Lakhdar-Hamina e dinamicamente filmada por Gatti, que arrojadamente vai com sua câmera por entre enormes multidões em movimento e através de desertos sulfurosos. O diretor, não contente em ser seu próprio operador de câmera, também trabalha na frente dela, interpretando o magro louco da cidade que delineia para Ahmed os centros dominantes do poder opressivo ("onde tudo está à venda"), quando não está pregando a seu público cativo de lápides ("Onde se está a salvo do perigo é no cemitério").

Privações durante a guerra levam os argelinos a se perguntarem, "França, Hitler, America, o que importam pra gente?" levando à conclusão inevitável de um organizador político de que "só resta um caminho: violência. Eles vieram pela força e só sairão por meio da força". (...)

Estimulantemente ambicioso e irradiando confiança cinematográfica, este é um filme de energia visual incomparável e talento formidável, que exige ser visto mais uma vez nos cinemas do mundo, como pretendido.

Análise retirada do site Cineafrica


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domingo, 20 de abril de 2014

IL DIVO - 2008

Il divo: La spettacolare vita di Giulio Andreotti

Legendado, Paolo Sorrentino
Classificação: Excelente

Formatos: AVI
Áudio: italino/inglês
Legendas: português
Duração: 110 min.
Tamanho: 1,36 GB
Servidores: 1 Fichier (3 partes)

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SINOPSE
Calmo e impenetrável, Giulio Andreotti, líder do Partido da Democracia Cristã, representa o poder na Itália há quatro décadas. Com quase 70 anos de idade, Andreotti se encaminha ao sétimo mandato consecutivo como Primeiro Ministro. Sem temer nada nem ninguém, gerencia o país em completa simbiose com o poder imutável dos velhos governantes. Desta forma, batalhas eleitorais, atentados terroristas ou acusações comprometedoras vêm e vão sem atingí-lo. Até que o contra-poder mais forte da Itália, a Máfia, decide declarar guerra a ele. Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2008.

Fonte: Cineplayers
The Internet Movie Database: IMDB - NOTA IMDB: 7.3


ANÁLISE

Ao lado de Gomorra, de Matteo Garrone, Il Divo saiu do último Festival de Cannes carregando o peso crítico de representante do “renascimento do cinema italiano”. Vistos os filmes, é inevitável a problematização da eleição (ignorando, para render a discussão, que toda eleição do tipo já é deveras problemática). Em primeiro lugar, porque algo que nunca morreu não precisar renascer: se o cinema italiano já nos deu Rosselini, Antonioni, Visconti, Fellini e tantos outros inestimáveis artistas, hoje segue relevante com nomes como Nanni Moretti, Emanuele Crialese e Kim Rossi Stuart sempre rondando as listas dos filmes mais interessantes de seus anos. Em segundo, porque Gomorra e, principalmente, Il Divo usam uma estratégia de cinema já bastante familiar no panorama mundial atual, mas de resultados estéticos ainda bastante pouco convincentes: a de uma certa estética transnacional que uniria sujeitos como Guy Ritchie, Fernando Meirelles, Alejandro Gonzales Iñarritú e Park Chan-wook. Embora partam, muitas vezes, de temas locais, a maneira de se aproximar desses filmes não é local ou tampouco estrangeira: é filha de lugar nenhum.

Não existe, portanto, nesse cinema de aeroporto um diálogo com a territorialidade geográfica, cultural e imaginária local (Miguel Gomes, Lucrecia Martel, Jia Zhang-ke, Apichatpong Weerasethakul) ou mesmo com a saudável desterritorialidade cinematográfica que serve como combustível-matriz para alguns dos cineastas mais interessantes da atualidade (Wong Kar-wai, José Luis Guerín, Johnnie To, Hong Sang-soo). Existe, sim, um desejo agudo de aproximação com um certo repertório do cinema contemporâneo norte-americano, mas que reflete a ingenuidade de crer que os signos desse cinema seriam obra em domínio público, como se a relação estabelecida com eles estivesse partindo de uma totalidade de Cinema (com c maiúsculo), sem nunca se dar conta de como esse universo é fascinante justamente por ser restrito e particular – explicando, por exemplo, a ausência de realizadores americanos nas duas pequenas listas acima: os EUA são o lugar onde a desterritorialização é, sobretudo, uma questão de identidade local.

É difícil, porém, não ficar impressionado com a destreza com que Paolo Sorrentino transita entre suas influências, do flerte com o universo dos quadrinhos de um Robert Rodriguez, à ironia caricatural dos irmãos Coen; do fluxo encadeante de imagens de um Todd Haynes, à fragmentação do quadro de Brian De Palma. E, para manter as coisas razoavelmente perto de casa, há, claro, um desejo escancarado de se tornar Martin Scorsese. A questão mais problemática de Il Divo não é, porém, fazer uso desse repertório; mas sim passear por essas cascas de cinema sem nunca atentar para o seu conteúdo, sua substância central. Por isso, às vezes um mesmo recurso pode ser usado de maneira surpreendente, em um momento, e nefasta, em sequência – basta pensarmos no uso das canções à Tarantino, que constrói tanto minutos mais vitais, quanto aberrações como “Da Da Da”, da banda alemã Trio, nos créditos finais.

O resultado é de uma esquizofrenia tão manca quanto fascinante, pois nesse desfile por galerias de tipos cinematográficos, Sorrentino chega, talvez, ao feito mais surpreendente deIl Divo: reduzir a realização cinematográfica às suas mínimas partes, gerando, assim, uma espécie de novo cinema de atrações à Eisenstein. Todo plano – sempre curtíssimo, a não ser que se torne um plano-sequência, claro – é cuidadosamente pensado como pulsão visual; todo movimento de câmera é certeiro; toda fala é cavada nas pedras do definitivo. A questão macro é que não estamos diante de um filme que se ambiciona como experiência de atrações, mas sim de um longa-metragem assombrado por uma monumental e imaginária obrigação narrativa. Assim, não deve ser bom sinal que Il Divo seja um filme muito mais interessante quando desistimos de ler as legendas. É bastante sintomática, portanto, a maneira como Sorrentino começa e encerra seu filme: uma cartela de texto informa dados “relevantes” da história que teriam ficado de fora do tempo regulamentar de Il Divo.

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segunda-feira, 14 de abril de 2014

A MORTE DO SENHOR LAZARESCU - 2005

Moartea domnului Lazarescu, 2005
Legendado, Cristi Puiu
Classificação: Excelente

Formatos: AVI
Áudio: romeno
Legendas: português
Duração: 150 min.
Tamanho: 1,36 GB
Servidores: 1 Fichier (3 partes)

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LEGENDA: LINK - Servidor: Mega


SINOSPE
Lazarescu Dante Remus, antes um homem orgulhoso, vai lentamente se despedindo de seu corpo e dos corpos que o cercam. Seu nome, antes dito com segurança e clareza, torna-se um balbuciar incompreensível. A odisséia de um idoso pelo cruel sistema de saúde de Bucareste, contada momento-a-momento por toda uma madrugada resulta numa obra arrasadora, urgente e necessária. 

The Internet Movie Database: IMDB - NOTA IMDB: 7.9

ANÁLISE
Todos os anos, uma série de filmes obscuros, feitos com orçamentos minúsculos e atores desconhecidos, ganham a atenção de cinéfilos do mundo inteiro quando conseguem se destacar no Festival de Cannes, o mais glamouroso da temporada européia de prêmios. Em 2005, uma pequena comédia de humor negro romena alcançou notoriedade ao vencer a segunda mostra mais importante da competição, Un Certain Regard. “A Morte do Sr. Lazarescu” (Moartea Domnului Lazarescu, Romênia, 2005) é um excelente exemplo de cinema econômico e minimalista, em que histórias miúdas de gente anônima oferecem um sensível e poderoso retrato da condição humana, com todas as suas idiossincrasias.
Cristi Puiu
Antes de aportar em Cannes, o diretor Cristi Puiu era um ilustre desconhecido oriundo de Bucareste, capital romena e território virtualmente invisível no mapa do cinema internacional. O cineasta saiu do festival não apenas respeitado, mas com chances reais de fazer carreira em algum mercado mais importante, como França ou mesmo EUA. Não quis. Preferiu voltar à Romênia para dar seqüência ao projeto de filmar seis longas-metragens pequenos e despojados, enfocando histórias de gente comum nos subúrbios de Bucareste, com um estilo naturalista que evoca nuances do cinema de Krysztof Kieslowski, mas com uma dureza que o diretor polonês nunca teve.
“A Morte do Sr. Lazarescu” abre a referida série com propriedade, oferecendo um panorama tragicômico do sistema de saúde do país do Leste europeu, e encontrando ainda espaço para tecer comentários sócio-políticos sobre a solidão na velhice e a couraça de brutalidade que a Medicina parece ter o poder de criar em pessoas que travam contato diário com a morte. É algo que parece tão natural para médicos e enfermeiros, e tão cruel para o resto de nós. Descrito como comédia de humor negro pelo próprio realizador, o filme não parece uma. Há uma fina camada de humor tipicamente europeu que cobre o enredo como verniz, um humor negro sofisticado, mas o impacto do filme é muito mais social do que cômico.
Em estética, “Lazarescu” é puro Dogma 95: inteiramente filmado com luz natural (a tonalidade imperfeita das imagens amareladas fornece um degrau a mais de urgência e realismo à história), em longas tomadas sem cortes, com câmera na mão. Não existe trilha sonora – só ouvimos música duas vezes, durante os créditos de abertura e encerramento. É um filme duro, simples, despojado, em que a estética não possui qualquer significado especial, sendo ditada unicamente pelas condições de produção. A atuação conjuntamente fabulosa do elenco inclusive sugere a impressão de que se trata de um documentário.
A história se passa em uma única madrugada, praticamente em tempo real. A câmera segue Lazarescu, um velho aposentado de 62 anos, em uma odisséia por quatro hospitais públicos de Bucareste. Lazarescu (Ion Fiscuteanu) vem sofrendo com dores de cabeça há quatro dias, e a coisa fica realmente ruim depois que ele, numa noite especialmente solitária, decide tomar um porre de bebida feita em casa – uma escolha terrivelmente errada, como ele logo vai perceber. Aos poucos, entre um telefonema e outro, vamos captando fragmentos da vida daquele senhor: é viúvo, tem uma filha adulta que mora no Canadá e não fala mais com ele, não possui amigos e é refém de um sistema de saúde falido.
O elenco, quase todo formado por atores amadores de meia idade, é simplesmente fantástico. Graças aos atores, parece que Lazarescu é um homem de carne e osso, existe de verdade, e está mesmo ali, morrendo aos poucos, na nossa frente. As atuações espontâneas ajudam a criar uma galeria fascinante de personagens muito humanos, como a paramédica que fica tocada com a situação cada vez pior de Lazarescu (e sua solidão), o médico nervoso que grita com os pacientes da emergência lotada e o casal de jovens doutores que parece mais interessado em encontrar um carregador de celular do que em atender o pobre coitado com incontinência urinária. Enfim, um filme impressionante.
Análise retirada do site Cinereporter