sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O SÉTIMO CONTINENTE - 1989

Der Siebente Kontinent, 1989
Legendado, Michael Haneke
Classificação: Excelente

Formato: AVI
Áudio: alemão
Duração: 104 min.
Tamanho: 700 MB
Servidor: Mediafire (4 partes) e 4Shared (torrent) 

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SINOPSE
Georg e sua esposa Anna percebem o quanto suas vidas são isoladas e monótonas quando sua filha Eva, em uma tentativa desesperada para conseguir atenção, passa a fingir estar cega. A família decide então alterar sua realidade e mudar para a Austrália.

Fonte: Cineplayers
The Internet Movie Database: IMDB


ANÁLISE

Atenção: A análise contém spoilers

A latitude humana do sétimo continente de Michael Haneke



Na seqüência final do celebre documentário Arquitetura da destruição (1992), o diretor Peter Cohen conclui em poucas palavras, toda a abrangência do dilema que circunda a sua obra documental e mais precisamente, todo o problema filosófico que envolve a ascensão do nazismo na Alemanha. Cohen se pergunta sobre a árdua tarefa de se definir o nazismo em termos tradicionalmente políticos, devido à diversidade de sua dinâmica que extrapola tais perspectivas. O nazismo segundo Cohen, se define por termos estéticos que tem como única ambição o “embelezamento violento do mundo”. Os campos de extermínio estariam muito mais ligados a uma espécie de assepsia estética e biológica da cultura humana, do que propriamente vinculados à extinção dos inimigos políticos do regime.
Seriam necessárias milhares de páginas e centenas de pensadores pós e pré segunda guerra, para que esse fenômeno calcado na beleza e na barbárie pudesse ser entendido com o mínimo de coerência. Porém, é louvável a capacidade que a poesia e a ficção, longe do rigor teórico ou documental, têm para nos atingir ao trabalhar sobre esse mesmo âmbito conceitual do autoritarismo. Sem sombras de dúvidas, no cinema contemporâneo, ninguém o fez e o faz, tão bem quanto o diretor austríaco Michael Haneke.
Um constante crítico do autoritarismo e um questionador do existencialismo humano. Assim poderia ser definido boa parte do trabalho desse que é um dos maiores gênios do cinema contemporâneo. Após receber dezenas de prêmios e ter praticamente cinco de seus filmes premiados com a Palma de Ouro em Cannes, Michael Haneke merece uma determinada atenção desde a sua primeira obra para o cinema, O Sétimo Continente de 1989.
Michael Haneke
Aclamado por filmes como Violência Gratuita (1997), Professora de Piano (2001), Caché (2003) e A Fita Branca (2009), foi depois de dirigir vários filmes para a televisão – muitos deles baseados em obras literárias – que a partir de sua primeira produção para o cinema, Haneke inaugurou sua vertente conceitual. Filme que deu vida a um traço autoral sistematizando uma crítica brilhante que parte de união precisa do formalismo de sua linguagem cinematográfica com o debate sobre os extremos do racionalismo.
Em O Sétimo Continente, Michael Haneke dá início ao que viria ser conhecido como a sua Trilogia da Era do Gelo Emocional (também chamada de Trilogia da incomunicabilidade ou Trilogia da glaciação’), seguido pelo O Vídeo de Benny (1992) e 71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso (1994). Ambas, obras de menos relevância em sua filmografia, mas que já nos permite traçar o perfil de Michael Haneke como o cineasta mais cruel e violento de nossos tempos, quiçá, da história do cinema mundial. O porquê de tamanha consideração me encarrego de esclarecer um pouco mais adiante, primeiro vamos ao filme.
O Sétimo Continente é baseado na história real de uma família de classe média austríaca constituída por Georg, um engenheiro, a sua esposa Anna, oftalmologista, e a sua filha Eva. Diante de uma vida normal cercada por uma rotina comum a qualquer ambiente doméstico, a família decide mudar-se para a Austrália em busca de recomeço. Porém, tal mudança nada mais seria que um pretexto social para a execução de um plano metódico onde o casal resolve dar cabo de suas próprias vidas, levando consigo a sua filha.

Representando os últimos anos de vida da família, que vão de 1987 a 1988, o filme é cercado da reconstrução de atividades cotidianas que acabam por remeter ao tédio e a insatisfação. Diante da ordem do tédio, pequenos e simbólicos gestos começam a se manifestar, como no caso da pequena Eva que no ambiente escolar simula ter sido arrebatada por uma cegueira espontânea, nada mais do que uma forma de expressar sua carência afetiva e requerer a atenção dos pais e colegas. Os pais, imersos na rotina também vivem certo dilemas, como o incomodo psicológico que Georg se submete, pelo simples fato substituir com mais eficiência um colega de trabalho a beira de sua aposentadoria.
O esvaziamento das relações humanas é a tônica do filme, a coexistência impessoal no quotidiano dos personagens e as relações de rotina, consumo e distanciamento transparecem na composição formal dos planos de Michael Haneke. Eis o grande dom de um diretor, transformar sentimentos e conceitos em imagens, muito se manifesta na composição e na montagem. O Sétimo Continente tem um tratamento único dentre os filmes de Haneke, tal formalismo procede em suas obras seguintes, mas nenhum alcança tamanha sistematização quanto nesse filme. Um típico exemplar do “estilo alemão” de se dirigir que faz lembrar muitas vezes, os documentários de seu contemporâneo, Harun Farocki.
Ao ler qualquer sinopse do filme, alguns poderiam acreditar que O Sétimo Continente expõe os dramas de uma família que acabam por derrocar em um suicídio coletivo. Porém, tal leitura seria um grande equivoco, pois nenhum “drama” é representado, os atos e incômodos são singelos, o filme é claro e prático o que faz da morte algo ainda mais violento. Michael Haneke é visceral, porém da forma mais sóbria possível. Os seus filmes são extremamente cruéis sem nenhum tipo de apelo estético ou glamorização da violência. Não há inocentes em suas histórias, tanto o que é narrado quanto a sua maneira de narrar põem em jogo as relações de cumplicidade.

A racionalidade e a falta de sentido da vida contemporânea são armas nas mãos de Haneke. A sua frieza narrativa, como por exemplo, as cenas onde a família planeja e executa a destruição de todos os seus bens antes de se matarem, são cenas que embriagam os expectadores com tamanha demonstração de brutalidade por parte de pessoas tão comuns. É terrível ver a violência, porém, é ainda mais terrível quando essa é cometida por um semelhante que não carregue consigo a herança de nenhuma relação maniqueísta. Eis a grandeza da crítica que esse filme representa ao desconstruir a moralidade e todos os excessos de valores racionais, ao mesmo tempo se apropriando dessa mesma maneira e ver e representar o mundo.
Freud certa vez afirmou que abolição da fronteira entre o humano e o não-humando carregava consigo o que ele determinou como “pulsão de morte”. Segundo o pensador tal característica, comum ao gesto e à arte grotesca, determina um processo de dessubjetivação que solapa o racionalismo e gera uma pulsão de morte. Michael Haneke propõe uma visão sobre o outro lado da moeda trazendo a pulsão de morte não para o contexto do grotesco ou das dualidades do ser humano, mas sim, para o contexto da clareza da orientação racional e do processo de desilusão gerado pela incapacidade de alterar a ordem do mundo. Diante daqueles que crêem que a pulsão de morte manifesta-se apenas no sombrio da existência humana, Haneke apenas traduz para o cinema o que todo processo racional acabou por manifestar como um dos seus possíveis legados, o suicídio e a descrença. Nesse seu caso, um suicídio enquanto um ato estético.
Por mais que se trate de um filme tomado por uma ordem niilista, é possível enxergamos uma profundidade que se aproxima de uma espécie de “embelezamento violento do mundo”. Algo que esteja além simplesmente dos meandros do esvaziamento racional dos sentidos existenciais. Talvez a metáfora do sétimo continente e do ritual de passagem -representado no filme pelo lava-jato fundindo assepsia e lágrimas – signifique uma representação da possibilidade de um lugar melhor. E não estou falando de uma concepção metafísica, mas sim, de quão melhor a existência humana poderia ser, se determinados traços da humanidade fossem diferentes. A descrença nesse caso, nada mais seria do que a manifestação, violenta e estética, da crença na possibilidade de um mundo mais digno.



Análise retirada do site sopadecinema

























































































































































quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

SCANNERS - SUA MENTE PODE DESTRUIR - 1981

Scanners, 1981
Legendado, David Cronenberg
Classificação: Bom

Formatos: RMVB
Áudio: inglês
Duração: 103 min.
Tamanho: 335 MB
Servidores: Mediafire (2 partes)

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SINOPSE
Nascidos de uma experiência num laboratório, os Scanners são pessoas com extraordinários poderes telecinéticos e mentais, capazes até mesmo de matar com a força da mente. O filme conta a batalha que se estabelece quando algumas dessas pessoas passam a utilizar seus poderes de maneira destrutiva e eles só podem ser detidos por alguém que tenha os mesmos poderes. Não se pode falar nos filmes de David Cronenberg sem citar os efeitos especiais, que sempre são um destaque à parte. Em Scanners, Cronenberg conseguiu realizar uma produção com efeitos de maquiagem excepcionais. Muito antes dos atuais recursos digitais, Scanners apresentou técnicas inovadoras que acrescentaram um impressionante realismo às cenas de cabeças explodindo e às transformações das personagens. A partir deste trabalho David Cronenberg conseguiu abrir as portas de Hollywood para seu ousado e insólito estilo de direção. 


Fonte: 2001video
The Internet Movie Database: IMDB


Análise

O trecho acima foi transcrito da edição nacional do DVD de Scanners – Sua Mente Pode Destruir, referenciando a épica cena da cabeça que explode, e que coloca a obra em um curioso paradoxo: longe de ser a contribuição máxima de David Cronenberg ao cinema, possui a cena que talvez seja a mais forte expressão do propósito do diretor enquanto cinematógrafo.
A trama aborda a existência dos Scanners, humanos dotados de terríveis poderes telepáticos (que mais tarde descobrimos serem frutos de uma experiência com drogas aplicadas em mulheres grávidas). Ao todo, são 237 Scanners espalhados pelos EUA, dentre os quais está Darryl Revok (Michael Ironside), conhecido como o mais poderoso de todos, e que planeja liderá-los em um megalômano plano de dominação mundial, mas vê-se confrontado por Kim Obrist (Jennifer O’Neill) e Cameron Vale (Stephen Lack), seu irmão mais novo e que compartilha dos mesmos poderes que ele. No meio dessa batalha, está a ConSec, uma poderosa corporação liderada pelo Dr. Ruth (Patrick McGoohan), cientista responsável pela criação dos Scanners.

Dessa fantástica premissa, após um breve início, somos levados à sede da ConSec, onde um experimento com Scanners está sendo feito e, após algo sair errado, um homem tem a cabeça implodida por Revok utilizando apenas os poderes da sua mente. A cena – fácil um dos momentos mais antológicos de toda a história do cinema -, retrata toda a crueza e poder destrutivo que o Cronenberg, que até então só tinha feito projetos quase independentes e de baixo orçamento, trazia consigo para o grande cinema de massas.
A sequência de menos de um minuto, onde alternam-se planos do algoz manifestando seu poder e da vítima sufocando e agonizando lentamente, é excruciante, sádica e, acima de tudo, uma genial metáfora visual ao conflito que pontua a trama e a filmografia do canadense: a bestialidade humana como uma força suprema que vê o corpo como uma prisão e que, ao se forçar a sair, destrói essa carcaça em que “habitamos” de modo devastador, tal qual um vulcão em erupção. O nosso corpo não nos basta. No cinema de Cronenberg, ele serve apenas para representar estados de espírito.

Claro, a força de Scanners não reside apenas na metáfora visual, também constituída por um embate final entre os dois irmãos telepatas (um espetáculo visual que impressiona até hoje por seu realismo gráfico) com um desfecho que reforça a tese de que o “corpo” é nocivo ao ser, sendo preciso abrir mão dele para sobreviver, mas também em seu argumento rico de contexto, que envolve uma evolução tecnológica que ainda impressionava (devemos considerar a época em que o filme foi feito, início dos 80′s e um embate de gigantes da tecnologia já entrando em voga: IBM versus Microsoft) e que jogava no lixo grandes abordagens anteriores da telecinesia no cinema que tinham em seu sustentáculo preceitos sobrenaturais (a exemplo de Carrie, A estranha – que se não usava o religioso declaradamente, também não se despia da áurea de ocultismo sob os poderes da personagem).
Se Scanners falha, é justamente na construção do ritmo, em vários momentos arrastado, e na condução da trama, com personagens que poderiam ser facilmente descartados, algumas reviravoltas mal explicadas ou mesmo desnecessárias, como o plano extremado do traidor da ConSec para destruir Cameron, além de muito tempo perdido com passagens quase “didáticas” acerca dos Scanners e suas motivações. Todavia, essas limitações se viam presentes em todas as obras do diretor até aquele período, colocando Scanners também como um marco divisor, tanto por abrir as portas aos grandes orçamentos, quanto por ser um ensaio de Cronenberg ao seu filme seguinte, que seria provavelmente a sua maior obra-prima: Videodrome – A Síndrome do Vídeo.

Análise retirada do site Cinecafe



terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

LEVIATÃ - 2006

Leviathan, 2006
Simon Bogojevic-Narath

Classificação: Bom

Formatos: AVI
Áudio: -
Duração: 14 min.
Tamanho: 140 MB
Servidores: Depositfiles (Parte única)


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SINOPSE
Curta que mostra a guerra e suas consequências, exibindo personagens estúpidos e sorridentes que conduzem o espectador a um desfile animado, inspirado pelo livro de Thomas Hobbes "O Leviatã", de 1651.

The Internet Movie Database: IMDB

O HOMEM URSO - 2005

Grizzly Man, 2005
Legendado, Werner Herzog
Classificação: Excelente

Formatos: AVI
Áudio: inglês
Legendas: Pt-Br
Duração: 103 min.
Tamanho: 688 MB
Servidor: Mega (Parte única)

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SINOPSE
A vida e a morte de Timothy Treadwell, ecologista e especialista em ursos. Por 13 verões consecutivos Treadwell foi para o Alasca viver desarmado entre esses animais. Nas últimas 5 vezes ele documentou sua viagem com uma câmera. Em outubro de 2003 os restos mortais de Treadwell e de sua namorada Amie Huguenard foram encontrados pelo piloto que deveria trazê-los de volta. O casal fora devorado por um urso, o primeiro caso registrado de ataque naquele campo. Herzog utiliza as filmagens de Treadwell para explorar sua personalidade e levantar questões sobre a difícil relação entre homem e natureza.

Fonte: Adorocinema
The Internet Movie Database: IMDB - NOTA IMDB: 7.8


Análise
Algumas pessoas que levam vidas extraordinárias (no sentido de incomuns) e têm consciência disso costumam dizer que suas histórias renderiam bons filmes. O ativista ecológico Timothy Treadwell conhecia o ditado e resolveu, ele mesmo, providenciar um relato de sua convivência com os ursos selvagens do Alasca. Durante 13 anos, Treadwell passou verões acampados em locais proibidos, comungando da vida selvagem dos animais ferozes e apresentando-se como protetor deles. Filmou muitas horas desses momentos fantasmagóricos em que contemplava a possibilidade do próprio desaparecimento, no meio dos animais. Ironicamente, acabou mesmo morto a dentadas por um dos ursos que tentava proteger, em outubro de 2003. A vida dele é o tema do fascinante documentário “O Homem Urso” (Grizzly Man, EUA, 2005), um dos melhores, mais originais e menos conhecidos filmes de 2005.
O projeto original do documentário nasceu do Discovery Channel. O canal ecológico de TV descobriu que Treadwell, tratado pela mídia nos EUA como uma folclórica piada humana, havia gravado quase 100 horas de vídeo digital, durante os últimos cinco verões que passara junto aos enormes ursos cinzentos do Alasca. Os produtores conseguiram acesso à maior parte desse material e passaram as fitas ao cineasta alemão Werner Herzog. A decisão se mostraria perfeita, pois Treadwell encarnou o tipo de personagem que Herzog se especializou em biografar: um homem vivendo à margem da sociedade, em um mundo romantizado, verdadeiro local de cruzamento de três fronteiras invisíveis: mundo selvagem X civilização, natureza X cultura, e sanidade X loucura.
O maior mérito do filme é a maneira crua e direta como documenta o drama pessoa de um indivíduo extremo, um drama que Herzog jamais cai na tentação de explicar (e, com isso, simplificar). Treadwell viveu em uma zona limítrofe. Era um pária até mesmo entre os ativistas ecológicos, e muitos dos que o conheceram – inclusive alguns entrevistados no filme – o consideravam louco. O documentário, porém, recusa esse e todos os outros rótulos possíveis. Narrado em tom sóbrio pelo próprio Herzog, o filme não tenta julgar a maneira irresistivelmente melodramática como Treadwell via a própria vida. Apenas a apresenta, com todo o vigor e complexidade de uma vida conturbada e contraditória. O resultado é tão fascinante quanto perturbador.
O retrato que emerge de Treadwell nos 100 minutos de filme percorre uma gama completa de emoções, fazendo jus ao homem extremo que ele foi – um sujeito excêntrico que flutuava entre a raiva e a felicidade, entre a risada e a agonia, entre a histeria e a irresponsabilidade. Há um grande número de flagrantes antológicos em “O Homem Urso”. Treadwell nomeia cada urso da ilha, reconhece-os de longe, aproxima-se até acariciar-lhes o pêlo, filma-os lutando, chora amargamente pelos que morrem. A cena mais esclarecedora é aquela em que treme de prazer histérico ao filmar uma fêmea defecando; depois, ele enfia os dedos no monturo, regozijando-se por tocar algo que “estava dentro dela agorinha”. É o mais próximo que Treadwell consegue chegar da transcendência, do amálgama com a cultura desses animais. Ele queria ser não um intruso, mas um participante ativo e fundamental do mundo dos ursos.
Resumir ou explicar a vida de Timothy Treadwell poderia ser algo fácil de fazer, mas Herzog evita tirar conclusões, e com isso preserva toda a riqueza controversa daquele homem. Não se trata, aqui, de psicologizar a vida do ativista, buscando as razões do comportamento dele. O cineasta entrevista amigos, ex-namoradas, parentes, mas não vai muito fundo na pesquisa, exatamente para evitar o que poderia parecer uma tentativa de explicar as atitudes de Treadwell. Herzog filma tudo com frieza, sublinhando certas partes com uma narrativa fria e cortante, fazendo comentários eventuais, mas mantendo distância do biografado. Ele não é simpático a Treadwell, nem o hostiliza. Mostra-o como foi. Narra suas ações, às vezes simpáticas e emocionantes, outras vezes irresponsáveis e malucas.
O fio condutor da narrativa, que se revela aos poucos, é o lado quixotesco de Treadwell, o modo romantizado como via a si mesmo. É fascinante perceber, por exemplo, como o rapaz construiu, durante anos a fio, uma narrativa absolutamente ficcional sobre sua própria vida no meio dos ursos. Treadwell se via como o protetor solitário dos animais contra os visitantes, um Tarzã do Alasca. Nas 100 horas de vídeo que filmou, contudo, ele só documentou um único encontro com turistas, além de ter passado várias temporadas na reserva dos ursos acompanhado por namoradas (que quase nunca deixava aparecer diante da câmera, para não quebrar a imagem construída de si mesmo, tido como um eremita meio louco). Ou seja, Timothy Treadwell filmou um “documentário de ficção” sobre si mesmo, coisa que Herzog apresenta de maneira absolutamente exemplar.
Essa faceta de cineasta de Treadwell é mais um ingrediente que se soma ao mistério que foi a vida do rapaz. Herzog chega a mostrar que as pessoas ao redor de Timothy o viam de maneiras divergentes, mas sempre como um homem pitoresco, um pária de quem era bom manter certa distância. Por exemplo, os nativos do Alasca, representados no documentário pelo diretor do museu natural da região, explicam que Treadwell não era bem visto pelos ecologistas porque desrespeitava regras básicas de conduta entre os animais, aproximando-se irresponsavelmente deles (de fato, o protagonista acampava escondido dentro da reserva dos ursos, caso contrário era expulso pela guarda florestal). Essas coisas enriquecem ainda mais a narrativa. Quem era Treadwell, afinal? Por que agia assim? Isso, o filme não explica. Ainda bem, pois dessa forma o diretor alemão preserva o mistério fundamental da existência humana.
Sinceramente, eu não gosto de fazer comentários pessoais sobre os filmes a que assisto, mas “O Homem Urso” é tão diferente, tão intenso, que quebrar essa regra pode ajudar você, leitor, a ter uma idéia do impacto que ele pode ter diante da platéia. Eu assisti ao documentário acompanhando, num misto de fascinado e perturbado, a trajetória única de Treadwell. Depois de vê-lo, à noite, não consegui dormir. Passei a madrugada em claro, ruminando sobre o filme, o rosto loiro insistentemente voltando à mente como um fantasma.
O que mais me impressionou, de fato, foi poder ter acesso aos devaneios mais íntimos de um desconhecido. Sabe aqueles momentos em que você sonha acordado, imaginando ser um astro do rock ou um jogador de futebol fazendo um golaço na final da Copa do Mundo? São os momentos mais íntimos que uma pessoa pode ter, momentos que ninguém deveria ter acesso. No caso de Treadwell, ele próprio providenciou os meios para que nós, espectadores, pudéssemos vê-lo despido de todas as máscaras sociais. Impressionante mesmo, o que faz do filme uma experiência profundamente tocante.
Análise retirada do site Cinereporter

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